No Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, compartilhamos esta mensagem coletiva para nos convidarmos a escutar melhor a Mãe Terra e a continuar protegendo aqueles de nós que cuidam dela e a narram.
Com a afirmação “sem as vozes das narradoras e dos narradores não existe história completa” e a pergunta, como protegemos #APalavraEmRisco?, a mídia independente Agenda Propia, conjuntamente com sua Red Tejiendo Historias, co-criaram o terceiro manifesto em defesa do cuidado aos jornalistas, comunicadores e comunicadoras interculturais que com os nossos relatos e reportagens fazemos visíveis as realidades dos povos, preservamos a biodiversidade e protegemos os legados e as memórias vivas dos territórios.
Esta declaração começou a ser tecida por meio de diálogos e exercícios de escrita coletiva na cidade de Mocoa, região andino-amazônica colombiana, onde mais de uma centena de participantes –de regiões rurais e urbanas, e de comunidades camponesas e indígenas– do Festival Espiral de Historias contribuíram com suas vozes. Depois o processo chegou à Red Tejiendo Historias, composta por mais de 400 pessoas de 17 países da América Latina (Abya Yala), através do formulário digital e uma roda virtual da palavra.
Esta iniciativa parte das experiências locais de jornalismo e de comunicação comunitária, reconhecendo as diversas origens de nossos povos, carrega uma mensagem de soluções, de cura e positivas, em meio a esta crise ambiental, nos apoiando em “todas as vozes que a gente é”.
No Manifesto #APalavraEmRisco: A Mãe Terra fala. Escutemos!, declaramos que:
Reconhecemos “nossa Mãe Terra como um ser espiritual que nos conecta a partir do visível e o invisível. Dela nasce a água, que é a vida; o fogo, que é a força; o ar, que é o oxigênio. Se não escutarmos nossos mensageiros, a terra fala por si mesma. Temos que respeitar sua beleza, não modificar a ordem e o sistema natural”.
Compreendemos que “o desafio do jornalismo colaborativo intercultural e da comunicação é despertar sentidos reais de pertença nas comunidades. Temos que sentir-pensar o que acontece ao nosso redor para conseguir expressá-lo”.
Trabalhamos coletivamente e com nossos saberes para “cuidar, proteger, salvaguardar, defender e manifestar a importância da vida e de todos os seres nos nossos territórios”.
Criamos relações que permitem tecer vínculos e novas formas de comunicação onde umas e outros coincidimos por meio da palavra. Juntamos universos divergentes.
Enquanto jornalistas, comunicadorxs e narradorxs interculturais, nos comprometemos com e recomendamos:
- Escutar mais e falar menos (Para sentir-pensar melhor o chamado da Mãe Terra).
- Reconhecer as diversidades e construir a partir das diferenças.
- Aprender e desaprender para narrar as realidades dos povos.
- Continuar chegando nos territórios indígenas, quilombolas e camponeses para conhecer suas raízes.
- Incluir narrativas e perspectivas que contribuam a curar a terra e seus ecossistemas.
- Levar em conta todas as vozes, percorrendo o caminho das sabedoras e dos sabedores.
- Narrar, comunicar e dialogar em línguas próprias.
- Insistir que o conhecimento dos povos originários é tão importante como o científico.
- Co-criar a partir da espiritualidade e da terra.
- Reflorestar o próprio coração e o das nossas famílias e comunidades.
- Recuperar e aplicar os saberes ancestrais. Colocar a oralidade e a palavra no centro.
- Ensinar para as gerações mais novas as narrativas interculturais e o jornalismo.
- Apoiar a comunicação a partir dos nossos próprios territórios para que as vozes não sejam distorcidas nem silenciadas.
- Falar com lideranças mulheres e homens, narradores e jornalistas indígenas e não indígenas que tema sido deslocados pela força. Escutar elas e eles no exílio.
- Aproveitar a tecnologia para preservar os saberes e conhecimentos.
- Continuar criando redes e fortalecer as que já existem para nos articularmos e trabalhar coletivamente.
3 de maio de 2024, América Latina.
Este Manifesto é publicado com o propósito de que seja escutado, acolhido e visibilizado na região por mais comunicadoras, jornalistas, narradores, meios, coletivos e diversas organizações. O jornalismo colaborativo intercultural comunica as mensagens dos territórios, fortalece as comunidades e dignifica o caminhar dos povos.
Nossos manifestos
No marco do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em 2022 foi publicado o Manifesto #LaPalabraEnRiesgo: Voces del territorio por la vida”, e em 2023 “#LaPalabraEnRiesgo: Comunicamos para sanar la memoria”. Nos dois, a Red Tejiendo Historias expôs os desafios e riscos que ameaçam a vida da natureza e a de narradores e defensores. Nossas regiões encaram conflitos ambientais, o crime organizado, violações contra os direitos humanos, migrações e extrativismo, enquanto seus habitantes resistem e tecem narrativas transformadoras e de esperança. Por tanto, é urgente melhorar as condições de segurança e de harmonia física e espiritual para fazer um jornalismo colaborativo e intercultural melhor.
Agradecemos a:
- A Mãe Terra, os seres espirituais e as comunidades que nos permitem contá-las.
- As 200 pessoas que participaram no Festival Espiral de Historias realizado em Mocoa, Putumayo, Colômbia, nos dias 29 de fevereiro y 1 de março de 2024.
- Jornalistas da Red Tejiendo Historias de México, Guatemala, Colômbia, Bolívia, Panamá, Venezuela, Chile, Argentina, Costa Rica e Brasil, que estiveram presentes na roda de palavra de co-criação e responderam ao formulário participativo.
- As diversas mídias aliadas que se somam à divulgação do Manifesto 2024 #APalavraEmRisco: A Mãe Terra fala. Escutemos!
- A equipe intercultural de Agenda Propia.
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